terça-feira, outubro 27, 2015

Alheado o lugar no qual me sento,
trivial o lar no qual mal sinto,
e as emoções algo de indistinto
da passagem exterior do vento.

Aninham-se as horas no momento,
abrigam-se de águas que pressinto,
e o próprio existir ante mim minto
para ignorar todo o sentimento.

Mas nuvens pairam como memórias,
carregadas, cinzentas, de histórias
que tristes escorrem às janelas

a falta de terem sido belas -
invadem o silêncio que esqueço,
que nem voz de alguém que não conheço.

quarta-feira, setembro 30, 2015

As ruas adormecem. O candeeiro
ilumina ténue e mal as memórias,
o cinzento-calçada sem histórias.
De pouco serve ter na mão o isqueiro.

É balda da insónia a varanda.
Não se avista onde o caminho conduz -
a esta hora o caminho está sem luz
e o pensamento só por si não anda.

No ar de um morcego a dança perene.
Resta fitar a ausência de passos
entre os prédios da rua e muros baços,

'sperar até que não esteja vazia
das pessoas que traz a luz do dia,
e que uma delas sorrie e me acene.

quinta-feira, setembro 17, 2015

Findo o impulso, passado o vento,
do carvalho as muitas folhas quietas
adornam as fronteiras não rectas
da clareira só e o pensamento.

Luzindo e entrecortando o momento,
a Lua que invade como setas
as frestas das mil ramadas pretas
do bosque calado e o sentimento.

Aqui não há nada. Um lobo uiva.
Ateio uma fogueira e a chama é ruiva,
dispersa na sombra do carvalho.

Longe, de um palácio as ténues luzes.
Aqui, palavras dormem sob cruzes
e uma chama arde p'ra caralho.

sexta-feira, julho 31, 2015

A minha casa é o Templo das Horas
onde o tempo flui, sem pressa nem demoras.

E eu serei o fantasma que a assombra
e onde a tocha dá a luz eu sou a sombra.

E a voz do tempo fala sem qualquer sotaque,
e eu escuto e só oiço "tique taque, tique taque".

Como no respirar, passou por mim a inspiração
que quando se expira nos deixa sem vazão.

No intervalo seguinte fica-se com falta de ar
e o relógio bate, único som no lugar.

Privado de oxigénio, sobra escrever uma rima
que cai como uma uva que sobrou da vindima.

Como o sobrevivente de um destruído hemisfério,
como o morto que passeia à noite no cemitério.

Onde o único vinho e a brisa que perpassa
é a noção de a não haver e de estar vazia a taça.

Deixo a sede vã soar, envolto no ar bafio,
mas do novelo do silêncio apenas puxo mais um fio.

Como uma gata sem esperança que absorta
finge brincar para esquecer fechada a porta.

Deste Templo a única estátua de pedra é a arte,
do céu carregado de breu o ténue brilho de Marte.

Vã, fútil, inútil, mas ainda assim o estandarte
de um pelotão caído, de um coração que se parte.

quarta-feira, julho 22, 2015

Subindo, almejando, na passada clandestina entre as árvores serranas, procuro o mais recôndito miradouro natural no qual melhor sentir a vista nocturna da natureza virgem por baixo do meu olhar sequioso de paisagem escarpada e selvagem. Aonde o vento justifique com a sua intensidade a pele adormecida que me envolve, aonde ele como lâminas reveladoras me entrecorte o conforto dos cabelos dependurados quais frutos por colher, aonde ele me traga ao olfacto citadino e poluto a frescura de mil fragrâncias do mundo imenso, da sua maresia, da pólvora das guerras, dos côcos das palmeiras dos oásis no deserto. Por isso ascendo. Haja trilho ou não, ascendo. Procuro na longitude o que não está na latitude. Não quero saber de coordenadas. Estar perdido é uma ilusão. Sei que estou no planeta Terra, e por isso ascendo. Sem ilusões, sem pretensões, que não caminhar, e caminhar, deixando para trás as pegadas mil, decalcando a ininterrupta marca da minha demanda, visível, mais saliente ou menos, mais inteligível ou menos. Amigos as verão, inimigos as verão, uns interpretarão de uma forma, outros como lhes convier. Subo, tendencialmente ignorante dos barulhos das aves de rapina e dos lobos. No durante, procuro entender e descrevê-la com os meus passos toda a realidade que me circunda, e também a que me está inscrita. Como o Galileu, que analisou toda a nossa circunferência, e que quiseram crucificar por isso. Como os filósofos, que observam sempre, e analisam sempre, indiferentes aos limites, pois não os ultrapassam na sua mente puramente constantante. Como os artistas, com todo o exagero que a arte acarreta. Subo, displicente em relação aos perigos. Subo, fiel aos instintos que prevalecem, maiores, intocáveis, como as árvores seculares que rodeiam este abrigo, exposto, mas paradoxalmente um abrigo. Abrigo da sociedade, das notícias, da política, das telenovelas, dos dramas, e de outras subtilezas... De tudo o que existe no dia-a-dia comum. Por isso prossigo. Sem querer mais do que as folhas caídas dos ciprestes em meu torno , sem mais querer do que a minha própria mónada verde. Sou daqueles gajos que estacionam sem ocupar dois lugares. Estaciono no meu, e quem quiser que estacione onde quiser. Se quiser estacionar ao pé do meu, tem lá espaço. Só isso. Fora isso, é sempre a seguir caminho, sem querer saber da distância nem das pegadas nem dos arredores. Estou bem neste caminho incerto. Estarei bem, onde quer que ele vá dar. É isto a liberdade. É isto o mundo, para lá do lugar-comum que é a povoação regrada. É isto a vida que há escondida, algures dentro da vida. Sou isto. Nada mais. Mas também nada menos.

sábado, julho 18, 2015

De janela entreaberta observo a cidade e a aragem.
Cai a noite, e o vento sopra uma projecção de viagem.

As paredes desintegram-se e com elas vai-se o calor.
Alguém liga o micro-ondas e ele dá o som do motor.

Vou contra um camião fantasma que me atropela a alma.
Perco as rédeas do volante e lá se vai toda a calma.

Estava só no meu país mas fui parar a uma floresta.
Da estrada um trilho cerrado, até que não há uma fresta.

Os mochos piam a direcção mas não consigo entendê-la.
A lua ilumina um pombo a ir louco contra a janela.

Oiço sons de patas ferozes que rondam os arredores.
Entro em pânico, mas não consigo alcançar os estores.

Tento fugir mas em vão, músculos aterrorizados.
Tento fechar os olhos, mas eles estão esbugalhados.

Vim parar a um sítio místico, os sentidos em dormência.
Mas não consigo adormecer para sair desta demência.

Até que se ouve uma música e aos poucos nasce o dia.
Dissipam-se os arbustos e os passos e a azia.

Embalado pelas notas dou por mim de volta a casa.
De regresso à paz do lar, a normalidade extravasa.

Suspiro... mas não sei se aliviado ou nostálgico.
Não sei se pertenço aqui ou àquele lugar mágico...

Olho enfim para a janela e para a rua pequena.
Tudo está conforme mas no parapeito uma pena.

Penso no pombo e há uma questão que em mim ecoo.
Aonde é que acaba a asa, aonde é que começa o vôo?...

quarta-feira, julho 15, 2015

De dia 12:

Perdida no mais alto mar
ao sabor da ondulação
deriva uma só embarcação
sem destino ter, nem lugar.

O seu nome é Nau Trotineta
e ao comando seu lá vou eu.
Pedalo sempre rumo ao céu,
sempre evitando a linha recta.

Deixei para trás minh'aldeia,
só que por ter alma de artista
do trajecto perdi a pista
fascinado p'la lua cheia.

E agora? Mas que grande bosta!
Pouco falta para estar morto...
Há dias que não se vê porto.
É que nem sequer uma costa!

Acabaram-se os mantimentos,
sobrevivo de água do mar,
mas isto não pode durar,
que quilos já perdi duzentos!

Encostado à proa, a esperança
perdeu-se no rasto da popa.
Sabia mesmo bem uma garoupa...
Mas nada pr'acalmar a pança.

Enfim. Uma vez conformado
co'o final da minha história,
à cabeça vem-me a memória
de momentos do meu passado.

As batalhas que combati!
Inimigos que degolei!
Víuvas que a seguir violei!
Condecorações que obti'!

Das lembranças o maior mote
são as gajas que já papei!
Oh, e como rejubilei
se deixavam ir ao pacote!

Fecho os olhos e espero o fim.
Brado meu adeus em voz alta.
Um som porém me sobressalta.
Abro os olhos... 'stou sem latim!

Alguém se aproxima... a voar!
Será uma espécie de anjo?
Será da morte algum arcanjo?
Ou estarei eu a alucinar??

Mas não... é humano este ser!
E está a vir pr'aqui! Pequenina,
a cara tem-na de menina
mas o corpo, esse é de mulher.

Só consigo exclamar um: "Hã?!"
Até que poisa no convés.
Esfrego os olhos, conto até dez...
"Olá. Chamo-me Patty Pan."

Dou por mim todo abananado,
tenho em turbilhão os neurónios.
Acho que se fosse unicórnios
não ficava tão admirado!

"Então! Manda a educação
que te apresentes, como eu fiz!"
... "Desculpa. Sou o capitão RiS.
Mas que inesp'rada aparição!"

"Bem, vinha a passar e achei estranho.
Estás longe de tudo e sozinho."
"Pois é... Sem comida nem vinho!
Nem água para tomar banho..."

"! Que bom que te vi nesse caso...
Tem calma. Nada está perdido.
Já basta o que tu tens sofrido.
Vou-te pôr em Burkina Faso!"

"Ena!!! És a minha heroína!
Tiraste-me cá de um sarilho...
Queres que te faça algum filho???
Preferes encomendas da China?"

"Não, não... não preciso, obrigada.
Gosto de fazer boas acções.
Porém tenho umas condições!
E vais ver que não custa nada.

Apenas peço uma promessa:
Carne nunca mais comerás.
Que os animais vivam em paz!
É só, nada mais me interessa."

O quê?! Minha alma está partida!
Eu gosto tanto de um bom bife... :\
Mas nada de armar em xerife,
ela está-me a salvar a vida...

Acedo. Ela faz-me sinal
e eu subo-lhe às cavalitas.
Voamos à luz de estrelitas
em viagem que não tem igual.

E por fim piso terra firme.
Meu deus... sensação mais sublime!
Até choro, pois comovi-me,
e com os nervos desato a rir-me.

"Mil thanks!... queres o meu telemóvel??"
"Nahhh, vá, deixa-te lá de tretas."
Despede-se entre piruetas
e vai-se... assisto imóvel.

"Pá, jamais 'squecerei o rosto
da minha linda salvadora...",
reflicto, de volta à Amadora,
enquanto trinco um entrecosto!
De 21 de Junho:

Desço a escadaria do sentimento. Dou por mim sozinho à beira do Rio da Passagem. Não há outra margem. Sento-me, cabelos ao vento, à espera q alguém se sente ao meu lado, fitando a paisagem inevitável. Por trás, magnanime, à espera do meu regresso, a Torre da Solidão, e os corvos q bailam em seu torno, jocosos.

sexta-feira, março 27, 2015

Desco pela rua da noite sem rumo definido, no escuro. Porém não me sinto perdido, pois sei onde estou, conheço a cidade. Mas isso incomoda-me terrivelmente. Como se denunciasse a minha deambulação, como se tornasse flagrante que me infiltrei pela noite dentro. Como se a lua tingisse de um branco pálido e aberrantemente incolor o coração descontrolado. Meto pelo primeira porta do primeiro bar que me aparece à frente. Tento afogar o coração e sufocá-lo com cerveja e nicotina. Ele apenas se engasga e continua a bater fortemente. Dolorosamente. Respiro a medo. Cada golfada de ar me alimenta a mágoa de estar aqui. Fechado num bar a dissecar o desconforto da existência nocturna e citadina. Anseio pelo ar da serra e pelo vento pungente que parece que sopra a consciência e o inconseguimento para longe.

Preciso de férias de mim.

terça-feira, março 17, 2015

"Ah, epah, e se não queres pintar o quadro, não andes praí a esborratar o chão de tinta. Não é bonito."
"Desculpa... é que as latas tão cheias e eu ando com elas às costas e isto verte..."
"Epah não me venhas com desculpas, fecha lá mazé isso como deve ser. O mundo não é o teu palco."
"Pronto, desculpa, desculpa."
"No fundo é saber que o sol não brilha de noite."
"Está calado. Tu tens é medo de abrir as janelas."
"Não digas disparates. É cedo. Quando for de dia abro-as."
"O dia, meu caro, está dentro de ti... Só tens que sonhar com mais força."
"Era bom, amigo sonhador. Era bom. Mas sei que é de noite, e que se sair à rua a bradar aos céus que é de dia, o mais que vai acontecer é pensarem que eu sou maluco. Mesmo que não o digam em voz alta. Por isso, espero... Quando for de dia e nos virmos com mais claridade, aí anunciarei ao mundo a aurora."
"Tu é que sabes. Eu cá acho que és só maricas mas pronto."
"Lol."

domingo, março 08, 2015

A coragem é uma intenção gorada pelas areias do tempo cuja aridez a inspiração cada vez menos sacode. Adormecida sob a manta da inacção, aguarda a próxima tempestade para tentar levantar vôo.
Palpitam os lugares-sombra neste dia solitário. Vestígios de passagem, de encontros, de desencontros, populam as ruelas da cidade-fantasma em que vagueio. Como se o oleiro da memória fizesse moldes de uma série de objectos conceptuais e os largasse pela casa do hoje, vazia e irritantemente arranjadinha, como se não morasse ali ninguém, como se a presença fosse um mero acaso rodeado de indiferença. Sopra por tudo isto um vento por vezes frio, por vezes quente, chamado coração. Que mostra que ali está, que dá sugestões de temperatura, mas que nada muda por si só. Esta aldeia precisa de um moinho, algo que catalise e que da aragem faça o pão com que alimentar os sentidos, é preciso dar o sinal de partida e dar início à corrida centrífuga da nutrição espiritual. O silêncio urge o cântico a disfarçá-lo, urge as engrenagens existenciais a guinar, urge os instrumentos disponíveis a trinar, urge o poema a escrever-se. Assim se assina a condição humana de solidão e de desejo.

segunda-feira, março 02, 2015

Intenções...
Construo, destruo,
e fica só o nada.
O nada gritante,
o nada exasperante,
fitando de frente a minha indeterminação,
satírico.
Vejo-te, intermitente,
no espaço da imaginação
que se tenta apoderar da realidade
e do vazio.
Tentar desconstruir
para tentar construir -
mas está tudo coberto de medo,
tudo irreconhecível,
abstracto.
Já só quero avançar os ponteiros do relógio
até depois da ponte,
da travessia deste abismo emocional,
sem saber sequer se me esperam
do outro lado.
Não interessa.
Quero dormir esta sensação um pouco,
apagar as cócegas intensas
que me desgastam
e ferem.
O ego, com falta de oxigénio,
tenta vir à superfície
esbracejando loucamente
num mar negro de silêncio e de insónia.
Como é que eu vim ter aqui, pergunto-me.
(Tento racionalizar o facto de me sentir perdido.)
Mas não sei.
Foi tudo demasiado de repente,
como um acidente rodoviário
nas estradas do quotidiano,
nos percursos cartografados,
dos quais me despistei.
É oficial, morreu a dúvida
de que nasceu o amor.

domingo, fevereiro 22, 2015

Da névoa que alberga calada
a noite onde a alma já dorme
vem distante visão informe,
um vulto cuja aura é dourada.

Refulge pela treva instalada
o brilho que a sua aura oferta
e a côr da sua forma incerta
desenha no escuro uma estrada.

Despertam sentidos dormentes
rumo à luz que se fez caminho,
feitiço estonteante qual vinho
os trajes seus resplandescentes.

Os ornatos seus reluzentes
adornam um corpo de rosa,
realçam-lhe a pele sedosa,
lindos olhos, lábios e dentes.

Já próximo, a escuridão vã
dissipa-se no trilho ido
tal é o deslumbre sentido
pela figura mágica afã.

Resta a admiração de um fã
rendido à princesa guerreira
de espada, escudo e viseira,
e de nome seu Jessie Ann!

sábado, fevereiro 07, 2015

Facing the Reaper

A new world unveiled filled with horror and magic
I crushed into it on a night very tragic
dwindling I was in the lanes of apocalypse
and there you spreaded the word 666

Dark powers emerged, the earth split in two
My heart started racing, my legs shaking too
But what could I do, I knew nothing of thee
Dark wizard of chaos, chaos all I could see

I called upon God as you called upon me
But my calls were dull as you stood almighty
Heaven was far and your spell was near
About to give up I trembled with fear

But then I remembered the sword of my father
I shook my stunned head and wielded it high, rather
I professed my vow, to never give in
to the powers of thou, to the legions of sin

Today I still ride and fight on my horse
Undisturbed by your evil legions, their force
Today I still ride and fight through black meadows
For mankind's right to a life without shadows

Grim Reaper, hear this: now I shall not rest
not until my heavy sword puts you to rest
Your demonish troops I'll tear down one by one
Until I reach you and your realm is undone

So prepare yourself, the age of doom will fall
When I sight your castle and climb its thick wall
For people's hopes I carry, for we're not your son
And in your tomb shall lay written "killed by Conan"!